
Cada vez mais percebemos que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB - AP), está sim envolto na crise que atinge a instituição - fato muito diferente das palavras proferidas pelo senador a alguns meses atrás. Desta vez, porém, a situação política de Sarney tornou-se quase insusentável.
Na quarta-feira, o jornal O Estado de S. Paulo divulgou alguns diálogos gravados com autorização judicial, pela Polícia Federal, onde Fernando Sarney - filho do senador - discute com sua filha, Bia Sarney, a possibilidade de seu namorado assumir uma vaga deixada por seu meio irmão no Senado.
No desenrolar das conversas, Fernando afirma que já havia falado com Agaciel Maia, à época diretor-geral do Senado (colocado no cargo por Sarney), para tentar efetivar a contratação do namorado da filha. Entretanto, para que ocorra a nomeação, Fernando é informado por Agaciel que ele precisaria do aval do presidente do Senado (naquele momento era Garibaldi Alves, do PMDB - RN) ou então de José Sarney. Em 2 de abril de 2008, Fernando liga para Sarney, informa que já havia acertado alguns detalhes com Agaciel e pede ao pai que fale com o diretor-geral. O diálogo deu resultado. Em 10 de abril do mesmo ano, Henrique Dias Bernardes, namorado de Bia, foi nomeado Assistente Parlamentar 3, com ganhos salariais de R$ 2,7 mil.
O diálogo dos Sarney mostra como a família do ex-presidente da República tem poder dentro do Senado e exibe também a relação que José Sarney tanto queria evitar, sua ligação direta entre os atos secretos - forma como a efetivação de Henrique Bernardes aconteceu. Além de, é claro, escancarar uma outra face de atos ilícitos: o nepotismo.
O presidente Lula mais uma vez saiu em defesa de seu aliado. "É preciso saber o tamanho do crime. Uma coisa é roubar, matar, outra coisa é pedir emprego e o tráfico de influência, o lobby. O que não se pode é vender tudo como um crime de pena de morte", foi a declaração do comandante máximo do país, em entrevista à Rádio Globo. Lula pode até estar certo, pois matar, em minha opinião, é o mais grave de todos os crimes. Todavia, o que não pode acontecer é um presidente ser conivente com tal ato sujo, uma negociação de um cargo público que deveria ser preenchido mais por méritos - mesmo que por indicação - do que por um pedido, como este caso ilustrado pela família Sarney.
O presidente do Senado enfrenta, depois do recesso parlamentar, o Conselho de Ética. Mas eu me pergunto, como esse conselho pode ser ético se o presidente, o senador Paulo Duque (PMDB - RJ) afirma que os atos secretos são "besteira, não tem importância". Duque pode dizer asneiras como essa porque não tem de prestar contas à população, já que é o segundo suplente de Sérgio Cabral, atualmente governador do Rio de Janeiro. O primeiro suplente, Regis Fichtner, ocupa a chefia de Gabinete Civil do mesmo estado.
Agora questiono: será que o clã Sarney está no fim? É possível imaginar que não e ainda afirmar que nem a própria ocupação de presidente do Senado está ameaçada. José Sarney está blindado no Conselho de Ética. Para ocupar o lugar do oligarca Sarney, não faltam familiares e aliados políticos. Existem Roseana Sarney, filha, ex-senadora e atual governadora do Maranhão - o feudo dos Sarney -; Zequinha Sarney, deputado estadual, um pouco menos conhecido que Roseana; e não custa lembrar do próprio Fernando Sarney que, apesar de não ser político, tem excelente trânsito no alto escalão de estatais, principalmente do setor energático.
Como aliados ainda podemos citar Renan Calheiros (PMDB - AL), líder do PMDB no Senado e Edison Lobão, hoje ministro de Minas e Energia. Essa posição de Lobão só é benéfica para Fernando Sarney.
Apesar de todas as negatividades que o Senado apresenta, ainda temos um quê de esperança quando Cristovam Buarque (PDT - DF), Pedro Simon (PMDB - RS) e a bancada do PT, ontem, solicitaram que Sarney renuncie ou afaste-se de seu cargo. É amigos, parece que o clã Sarney estará na política por algum tempo. Infelizmente.